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Devaneio

Escrevo aqui para registrar esta dor de espírito que aflige-me. Há um incômodo cruel que vem de cima para baixo. Não consigo ver. Não consigo sentir. Não consigo fazer a única coisa que é minha por direito: ser. E além de não a conseguir, não a quero. Tal confusão é acachapante. O suicida tem isso como que amplificado algumas dezenas de vezes. E então ele chega ao cabo da coisa. Eu já cheguei nisso pelo pensamento, a via mais dolorosa, a via da tortura. Ah, a inércia! Ah, o lamento! Por que vocês me procuram? Se hei de se ser morada, que eu seja morada vazia. Só isso. Ou talvez outra coisa que não sei bem ao certo. Pois vazio é o estado do júbilo. O que estou dizendo? Não posso dizer “eu”. Sou incapaz. Já não tenho distinções. Os outros, sim. Como é bom ser o outro e não ser eu. Todos, filhos por si sós, e eu, filho de Pênia, nascido na necessidade eterna. Tenho aqui comigo apenas a coroa de espinhos imaginária a adornar meus pensamentos. Os outros tem seus passos firmes na Terra. Nem sinto os meus, o que não quer dizer que eu seja leve. Au contraire. Pobre andarilho da paralisia. Só queria morrer e nem morrer consegue. A morte o sacaneia. Há de esperar. E esperando, vive insípido, sem nenhum prazer a derribar-se sobre sua língua. Toda ponta de brilho entalha-se agora da rocha da nostalgia, a esfaquear o presente, nem tão atual assim, ou nem tão perceptível. Venham! Venham até mim, espectros da escuridão do tempo que não passa. Jantem comigo e evoquem, neste solilóquio mesquinho, as odes que pintam a imensa ilha de onde não se vê o oceano chamado Vida. Dela fui exilado. Estou fora do tempo e do espaço, mas não sou Deus. Sou apenas o que não nasceu para isso, já dizia o poeta. Tu, chame tudo isso de drama ou melancolia. Fique à vontade. Entretanto, eu, com o resto de suspiros meus que ainda podem suscitar alguma existência, digo-lhe: “É tudo hipocrisia!”.