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Como ver um filme

O que escrevi aqui não são diretrizes, mas retificações, que podem te dar uma abertura maior para um filme, assim como um melhor entendimento dele. Não apenas sentir vivamente, mas compreender claramente.
Começo então com uma frase do Bazin: “O cinema substitui um mundo por outro mais em harmonia com nossos desejos.”
Ok. Tendo isso em vista, arrisco a dizer: todo filme é um sonho. Não pode haver outro mundo, somente aquele na tela. Assim, é necessário estar inconsciente para ver um filme. Se Leibniz disse “Concordo com tudo quanto leio”, eu digo “Concordo com tudo quanto vejo e ouço”. E a inconsciência servirá para isso: extinguir a censura. Não censuramos os sonhos enquanto sonhamos. Estamos imersos naquilo que se impõe em nossa imaginação. Tente o mesmo com os filmes.
Outra coisa: um filme é uma obra de arte. O cineasta é um artista. Isto não deveria ser surpresa. Dito isso, é óbvio que as escolhas de um artista para a feitura de uma obra são objetivas. Arte vem do latim *ars que signfica técnica. *Na criação artístitica, a subjetividade da ideia humana encontra repouso na estrutura da linguagem técnica da arte em questão. Com o cinema não é diferente. Se o cineasta fez uma cena a partir de certo ângulo, com certo enquadramento, com certa trilha sonora, com certa tonalidade, etc, foi porque ele quis.
Não estamos em um campo de “Ah, o Nolan deveria ter feito a cena de abertura de Inception com 7 planos, ao invés de 13”. Um “crítico de cinema” disse isso. Não, ele não deveria. Se ele fez com 13 planos, tem um motivo. Lembre que as escolhas são objetivas. A forma é o conteúdo da obra. Além disso, não quero viver em um mundo onde só existe a versão de Dune do Lynch ou tão somente do Villeneuve. Tal obra existe para alcançar determinada ideia/visão do artista, e as ideias são infinitas, assim como suas possíveis formas. Só isso. Por isso, prefiro ficar longe de concepções daquilo que é melhor ou pior.
Também costumo ficar longe da crítica. O poeta Rilke disse que obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Ele está certo. O que importa no final, é sua relação íntima com tal arte.